
Cerca de 40% dos toxicodependentes em situação de marginalização, que consomem droga há pelo menos dez anos, nunca fizeram tratamento, constatou um estudo de caracterização do Instituto da Droga e Toxicodependência (IDT) que analisou uma amostra desta população que é acompanhada por equipas de rua de todo o país.
Segundo a edição desta segunda-feira do diário Público, o estudo, realizado este ano, mas com dados de 2004, foi levado a cabo com o contributo de dezanove das 26 equipas financiadas pelo IDT para dar apoio a toxicodependentes em situação de marginalização, que ajudaram a traçar um retrato parcial das cerca de 14 a 15 mil pessoas com quem as equipas contactam no espaço de um ano.
A amostra foi assim de 1216 consumidores problemáticos. Os dados analisados, a que o Público teve acesso, demonstram que são 37% os que nunca fizeram tratamento para deixar a dependência. O que não implica que não tenham tentado, na maioria das vezes por sua conta e risco, desabituações (88,9 por cento já o fizeram).
A responsável pelo Núcleo de Redução de Danos do IDT, Paula Andrade, explica que a maioria tenta esta primeira fase de desabituação física, que no caso da heroína dura de sete a dez dias, mas muitos não passam ao tratamento. Estas tentativas são, na maioria, feitas em casa (62,4 por cento), nalguns casos com ajuda de medicação prescrita, por exemplo, pelo médico de família. Os que foram além deste primeiro passo e optaram pelo tratamento pelo menos uma vez na vida são 62,9% da amostra analisada; a grande maioria recorreu a um Centro de Atendimento a Toxicodependentes, logo seguido de comunidades terapêuticas e do hospital.
Neste universo, a maioria tentou de uma a três vezes deixar a dependência. A redução dos riscos de contágio de doenças é um dos objectivos das equipas de rua, que também têm como função encaminhar para rastreio e tratamento de enfermidades.
Estudo constata que 33% já partilharam algum tipo de material de consumo, na maioria pedido emprestado ou, em menos situações, encontrado na rua. Entre os que partilham, o recipiente ou colher é o material mais partilhado, logo seguido da seringa. Outra prática de risco é a relação sexual desprotegida - de entre os 63% que têm parceiro, cerca de metade pratica sexo sem protecção.
Apesar da exposição a riscos, constata-se que quase metade nunca foram rastreados para o HIV (48,8%) e para a hepatite B (55,3%) e C (46,4%). Apenas 35,7% dos utentes foram rastreados para a tuberculose. De entre os utentes rastreados, a doença mais frequente é a hepatite C, com 65,3% dos utentes a ter diagnóstico positivo, seguido do HIV, com 38,1%.
Confirmando que a via injectada traz muito mais riscos de infecção do que a via fumada, o estudo verifica que, entre os consumidores que foram rastreados, os que fumam heroína estão menos afectados pelo HIV: 41,1%, em contraste com 88,8% de seropositivos entre os consumidores da substância por via endovenosa.